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O Governo decretou um dia de luto nacional para o próximo sábado em memória do escritor, que faleceu esta quinta-feira aos 83 anos. Candidato crónico ao Nobel, deixa uma obra vasta que marcou a literatura contemporânea.
Por Open Chronicle Portugal
LISBOA – Portugal chora a perda de uma das suas maiores figuras literárias. António Lobo Antunes, o escritor e psiquiatra que transformou as feridas da sociedade portuguesa em alta literatura, faleceu esta quinta-feira aos 83 anos. Reconhecido internacionalmente pelo seu estilo denso e metafórico, que o próprio descrevia como um “delírio controlado”, o autor sucumbiu após uma longa batalha contra problemas de saúde, incluindo uma forma de demência reportada recentemente.
O Governo português reagiu prontamente à notícia, decretando um dia de luto nacional para o próximo sábado, 7 de março, em homenagem ao legado de um homem que dedicou mais de quatro décadas à escrita.
Uma Obra Entre a Dor e a História
Com mais de 30 romances publicados, a bibliografia de Lobo Antunes é um mapa das sombras de Portugal. Desde a guerra colonial em Angola, onde serviu como médico militar entre 1971 e 1973, até aos fantasmas da ditadura e às fragilidades da vida comum, o autor nunca evitou temas difíceis.
O seu percurso na escrita ganhou balanço internacional com a publicação de Os Cus de Judá (1979), obra que reflete a sua experiência traumática na guerra e que o levou a abandonar progressivamente a prática da psiquiatria para se dedicar inteiramente às letras a partir de 1985.
“Ternura Incisiva”
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, rendeu homenagem ao escritor, destacando a dualidade da sua escrita: “António Lobo Antunes escreveu toda a sua obra num registo de ternura incisiva, colocando lado a lado a dor e o fracasso das vidas comuns com as tragédias políticas, o excesso e a empatia”, afirmou o Chefe de Estado em comunicado.
Vencedor do prestigiado Prémio Camões em 2007, Lobo Antunes foi durante décadas apontado como o mais forte candidato português ao Prémio Nobel da Literatura após José Saramago. Mesmo após vencer o cancro por três vezes, manteve um ritmo de produção prolífico, publicando quase um romance por ano até à fase final da sua vida.
O Legado de um Observador do Abismo
Filho mais velho de um conceituado professor de medicina, António Lobo Antunes deixa três filhas e uma obra que continuará a ser estudada pela sua complexidade estrutural e profundidade psicológica. O seu olhar clínico sobre a condição humana e a sua capacidade de fragmentar a narrativa para atingir a verdade emocional garantem-lhe um lugar eterno no cânone das letras universais.