Por Open Chronicle Portugal com agências
A diferença entre os preços dos combustíveis em Portugal e Espanha está a levar cada vez mais automobilistas portugueses a atravessar a fronteira para abastecer. A tendência poderá acentuar-se depois do Governo espanhol ter introduzido um desconto de 20 cêntimos por litro, colocando o gasóleo vendido em Espanha entre os mais baratos da União Europeia.
Em Portugal, as previsões apontam para uma nova subida do preço do gasóleo no início da próxima semana, enquanto a gasolina deverá ficar mais barata. Segundo estimativas da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC), o gasóleo poderá aumentar cerca de quatro cêntimos por litro.
O Governo português anunciou entretanto alterações ao desconto aplicado através do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP), procurando atenuar o impacto da evolução dos mercados internacionais.
No caso da gasolina simples 95, as alterações fiscais deverão significar uma redução de aproximadamente cinco cêntimos por litro na segunda-feira, ligeiramente abaixo da descida de seis cêntimos inicialmente antecipada.
Gasóleo poderá atingir novo máximo
A situação é diferente no gasóleo.
O ajustamento fiscal anunciado pelo Governo tem um impacto reduzido e não deverá impedir uma subida próxima dos quatro cêntimos por litro.
Com essa evolução, o preço indicativo do gasóleo poderá chegar aos 2,15 euros por litro, estabelecendo um novo máximo histórico.
A escalada dos preços está a aumentar a pressão sobre famílias e empresas, sobretudo nos setores particularmente dependentes do transporte rodoviário.
ANAREC acusa Governo de beneficiar com subida dos preços
O presidente da ANAREC, João Durão, criticou duramente a política seguida pelo Executivo e acusou o Governo de não dizer a verdade quando afirma que o Estado não está a beneficiar financeiramente com a escalada dos combustíveis.
Em declarações prestadas numa estação de serviço em Caminha, junto à fronteira espanhola, João Durão destacou o peso dos impostos no preço final pago pelos consumidores portugueses.
Segundo o responsável, por cada euro gasto em gasóleo, uma parte significativa corresponde a impostos, criando uma diferença fiscal importante relativamente a Espanha.
A associação alerta também para as consequências económicas nas regiões fronteiriças, onde postos de abastecimento portugueses enfrentam uma concorrência crescente das estações espanholas.
Diferença pode chegar aos 30 ou 40 cêntimos
Para quem vive perto da fronteira, abastecer em Espanha tornou-se cada vez mais atrativo.
Segundo a ANAREC, a diferença entre os dois países pode chegar aos 30 ou 40 cêntimos por litro, dependendo do combustível e da localização.
Uma diferença de 40 cêntimos significa que um abastecimento de 50 litros pode representar uma poupança de cerca de 20 euros, antes de considerados os custos da deslocação.
O fenómeno está a preocupar os revendedores portugueses, que alertam para uma transferência crescente de consumo para o outro lado da fronteira e para a consequente perda de receitas das empresas nacionais.
Espanha introduz desconto de 20 cêntimos
A diferença tornou-se ainda mais significativa depois de o Governo liderado por Pedro Sánchez introduzir um desconto de 20 cêntimos por litro para reduzir o impacto da escalada dos preços energéticos.
Com a medida, Espanha passou a apresentar alguns dos combustíveis mais baratos da União Europeia.
O gasóleo espanhol situa-se em torno dos 1,795 euros por litro, colocando o país na segunda posição entre os mercados mais baratos da União Europeia para este combustível.
Apenas Malta apresenta preços inferiores, segundo os dados citados. Seguem-se países como Bulgária e Hungria.
Em Malta, os preços encontram-se controlados pelo Estado desde 2020, com valores indicativos de 1,34 euros por litro para a gasolina e 1,21 euros para o gasóleo.
Norte da Europa enfrenta preços ainda mais elevados
No extremo oposto encontram-se alguns países do centro e norte da Europa.
A Finlândia surge entre os mercados mais caros, com o gasóleo próximo dos 2,477 euros por litro, seguida pelos Países Baixos, com 2,442 euros, Dinamarca, com 2,434 euros, e Alemanha, onde o preço ronda os 2,328 euros.
As diferenças demonstram o impacto combinado da fiscalidade nacional, dos mecanismos de apoio adotados pelos governos e da evolução das cotações internacionais.
Crise no Médio Oriente pressiona petróleo
Na origem da atual escalada encontra-se também a crise no Médio Oriente e as perturbações no abastecimento energético internacional.
O conflito envolvendo Israel, Estados Unidos e Irão, juntamente com o bloqueio do Estreito de Ormuz, aumentou a pressão sobre os mercados petrolíferos e contribuiu para uma forte valorização do crude.
O petróleo ultrapassou recentemente a barreira dos 100 dólares por barril, refletindo os receios relacionados com o fornecimento mundial.
Para Portugal, a combinação entre preços internacionais elevados, carga fiscal e a política de descontos espanhola está a criar um problema adicional nas regiões fronteiriças. Enquanto a diferença permanecer significativa, atravessar a fronteira para encher o depósito continuará a ser uma opção economicamente atraente para muitos automobilistas portugueses.