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Robôs humanoides chegam a Portugal: podem trabalhar em hotéis, restaurantes e fábricas, mas custam até 178 mil euros

Empresa de Famalicão prepara a entrada dos robôs da chinesa Agibot no mercado português e prevê que até 100 equipamentos possam estar a trabalhar no país dentro de um ano. Hotelaria, restauração, indústria e saúde estão entre os setores com maior potencial.

Por Open Chronicle Portugal com agências

Os robôs humanoides estão a preparar-se para entrar no mercado português. A SData AI, empresa sediada em Vila Nova de Famalicão, estabeleceu uma parceria com a fabricante chinesa Agibot para distribuir em Portugal equipamentos capazes de executar tarefas físicas, movimentar objetos e interagir com pessoas através de sistemas de inteligência artificial.

A empresa acredita que, dentro de um ano, entre 60 e 100 robôs poderão estar a trabalhar em território nacional, sobretudo em setores onde existem dificuldades de recrutamento e necessidade de automatizar tarefas repetitivas.

A previsão foi avançada por Paulo Silva, administrador executivo da SData AI, durante o encontro Beyond AI, realizado em Lisboa, onde foi apresentada a parceria entre as duas empresas.

Embora reconheça que o mercado português ainda está numa fase inicial, o responsável considera que a procura poderá crescer rapidamente. Dentro de dois a três anos, estima que as vendas possam atingir as 1.500 unidades anuais, à medida que os primeiros projetos-piloto demonstrem a viabilidade da tecnologia.

Cinco famílias de robôs disponíveis em Portugal

A SData AI disponibiliza atualmente cinco famílias de equipamentos da Agibot, desenvolvidos para diferentes ambientes e necessidades.

Entre os modelos encontram-se robôs humanoides bípedes, com dimensões próximas das de uma pessoa, equipamentos dotados de braços mecânicos capazes de movimentar objetos e plataformas robóticas de quatro patas, semelhantes a cães.

Estes últimos não são classificados como humanoides, mas integram a oferta tecnológica destinada a atividades de vigilância, mobilidade e assistência.

A adaptação dos equipamentos às necessidades das empresas portuguesas será assegurada por uma equipa de 12 profissionais da SData AI que está a receber formação junto da fabricante chinesa.

O objetivo é preparar os robôs para executar tarefas concretas, ajustando os seus sistemas de inteligência artificial aos ambientes onde irão trabalhar.

Dependendo do modelo e da formação recebida, os equipamentos podem deslocar-se autonomamente em determinados espaços, transportar objetos, organizar materiais, responder a perguntas ou fornecer indicações a clientes e visitantes.

Hotéis e restaurantes entre os primeiros interessados

A hotelaria e a restauração estão entre os setores onde a empresa portuguesa identifica maior potencial de utilização.

Nos hotéis, os robôs poderão apoiar os serviços de receção, orientar hóspedes, prestar informações sobre instalações e colaborar em determinadas atividades de limpeza.

William Shi, responsável da Agibot para o mercado europeu, considera que estas funções podem ser particularmente úteis em estabelecimentos com dificuldades em contratar trabalhadores.

Na restauração, os equipamentos poderão ser treinados para preparar bebidas, transportar objetos ou executar tarefas repetitivas.

No entanto, a capacidade de desempenhar diferentes funções não é automática. Cada atividade exige aprendizagem específica, o que significa que um robô preparado para uma tarefa simples poderá necessitar de formação adicional para realizar operações aparentemente semelhantes.

Indústria poderá beneficiar da automatização

As fábricas representam outra área com potencial para a utilização desta tecnologia.

Robôs equipados com braços articulados poderão movimentar componentes, organizar materiais ou executar operações repetitivas em linhas de produção.

A possibilidade de integrar sistemas de inteligência artificial com movimentos físicos representa uma evolução relativamente à automatização industrial tradicional, permitindo desenvolver equipamentos com maior capacidade de adaptação a diferentes tarefas.

Segundo William Shi, empresas como Bosch, Mercedes-Benz e BMW já adquiriram equipamentos da Agibot para testar a tecnologia.

Na China, a Longcheer terá avançado para a instalação de robôs numa das suas unidades industriais, de acordo com o responsável da fabricante.

Estes projetos poderão ajudar a avaliar a produtividade, a fiabilidade e os custos reais da utilização de robôs em ambientes profissionais.

Hospitais e apoio a idosos também estão nos planos

A utilização de robôs humanoides poderá estender-se aos serviços de saúde e assistência social.

Entre as funções identificadas encontram-se o acompanhamento de pessoas idosas, a interação através de conversas, o apoio durante pequenos passeios e a emissão de lembretes relacionados com a toma de medicamentos.

Estas aplicações poderão complementar determinadas atividades de assistência, embora não substituam os cuidados médicos nem o acompanhamento humano especializado.

Os modelos de quatro patas poderão também ser utilizados em rondas de segurança e, futuramente, em soluções de apoio à mobilidade de pessoas com deficiência visual.

Neste último caso, a utilização prática dependerá da capacidade dos equipamentos para operar com segurança em ambientes reais e da validação das respetivas funcionalidades.

Quanto custam os robôs humanoides?

O preço representa um dos principais obstáculos à adoção generalizada desta tecnologia.

Segundo William Shi, os equipamentos da Agibot podem custar entre 20 mil e 200 mil dólares, o equivalente a aproximadamente 17,8 mil a 178 mil euros, dependendo do modelo e das funcionalidades.

Contudo, o investimento inicial não corresponde necessariamente ao custo total de utilização.

Depois da aquisição, as empresas precisam de adaptar os equipamentos às tarefas pretendidas, recolher dados e desenvolver processos de aprendizagem.

Um robô preparado para fazer apenas um café expresso, por exemplo, terá necessidades de treino diferentes das de outro que também consiga preparar um cappuccino ou um café americano.

A complexidade das operações influencia diretamente o tempo de desenvolvimento e os custos associados.

Aprender uma tarefa pode demorar vários meses

Apesar dos avanços tecnológicos, ensinar um robô a executar corretamente uma atividade continua a ser um processo exigente.

William Shi admite que um equipamento pode necessitar de cerca de três meses para aprender uma única tarefa.

Paulo Silva acrescenta que atividades mais complexas podem exigir entre três e seis meses de preparação.

Grande parte desta aprendizagem depende da recolha de imagens e de outros dados utilizados para treinar os modelos de inteligência artificial.

Os sistemas precisam de reconhecer objetos, compreender a disposição do espaço e associar determinadas situações aos movimentos necessários para executar uma operação.

A fabricante acredita, contudo, que estes períodos de aprendizagem poderão diminuir à medida que os processos de recolha de dados e treino evoluam.

Uma das vantagens apontadas é a possibilidade de partilhar os conhecimentos adquiridos entre equipamentos compatíveis. Depois de um robô aprender determinada tarefa, outros poderão receber o mesmo modelo de aprendizagem, sem necessidade de repetir integralmente o processo.

Empresas precisam de investimento e paciência

A chegada dos robôs humanoides a Portugal não significa que estejam imediatamente preparados para substituir trabalhadores ou executar qualquer atividade.

Os próprios responsáveis da Agibot reconhecem que a aquisição representa apenas o início de um processo de adaptação.

As empresas interessadas precisam de identificar tarefas concretas, disponibilizar recursos financeiros e aceitar que os primeiros resultados podem demorar vários meses.

A tecnologia continua numa fase de desenvolvimento em que a demonstração de capacidades não equivale necessariamente a uma utilização autónoma e fiável em todas as condições.

Por isso, os projetos-piloto terão um papel importante na avaliação da segurança, produtividade e rentabilidade dos equipamentos.

Portugal prepara-se para uma nova fase da inteligência artificial

A parceria entre a SData AI e a Agibot representa mais um passo na introdução da chamada inteligência artificial incorporada, uma área tecnológica que procura integrar sistemas inteligentes em máquinas capazes de atuar fisicamente no mundo.

Ao contrário dos programas de inteligência artificial utilizados exclusivamente em computadores e dispositivos digitais, estes equipamentos combinam processamento de informação, sensores, visão artificial e sistemas mecânicos.

O potencial é significativo, sobretudo em atividades repetitivas, ambientes industriais e serviços com necessidades específicas de assistência.

Mas permanecem desafios relacionados com os custos, a segurança, a formação, a manutenção e a integração dos robôs nos locais de trabalho.

Para já, a previsão de até 100 robôs em funcionamento em Portugal dentro de um ano demonstra a ambição das empresas envolvidas. A concretização desse objetivo dependerá, porém, da capacidade de transformar demonstrações tecnológicas em aplicações comerciais viáveis.

A chegada destes equipamentos poderá marcar o início de uma nova etapa da automatização em Portugal, numa altura em que a inteligência artificial começa a deixar de estar limitada aos ecrãs para ganhar presença física em fábricas, hotéis, restaurantes e outros espaços do quotidiano.

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