Image: André Moz Caldas X@CaldasMoz
Por Open Chronicle Portugal
O cinema português perdeu hoje uma das suas vozes mais cruas, autênticas e rigorosas. João Canijo, o realizador que dedicou décadas a dissecar a identidade lusa e a complexidade das relações familiares, faleceu aos 66 anos, em Vila Viçosa. A notícia da sua partida deixa um vazio num panorama cultural que ele ajudou a redefinir, através de um método de trabalho único e de uma estética que não admitia concessões.
Nascido no Porto em 1957, Canijo não começou por trás das câmaras, mas sim no estudo da História, curso que abandonou para se entregar à sétima arte. Antes de se tornar um autor de pleno direito, aprendeu o ofício com gigantes, trabalhando como assistente de realização de nomes como Manoel de Oliveira, Wim Wenders e Alain Tanner. Contudo, foi na sua própria linguagem que encontrou o reconhecimento internacional.
João Canijo, realizador, Urso de Prata em Berlim 2023 por "Mal Viver", morreu esta quinta-feira em sua casa.
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— Público (@Publico) January 29, 2026
A carreira de João Canijo foi pautada por uma busca incessante pela verdade, muitas vezes focada nas margens e nas feridas abertas da sociedade. Filmes como Ganhar a Vida (2001) e Noite Escura (2004) marcaram o início de uma maturidade criativa que atingiria o seu auge com Sangue do Meu Sangue (2011). Esta obra, amplamente considerada uma das melhores do cinema português contemporâneo, exemplificou o seu método: meses de ensaios e laboratórios com atores que, mais do que interpretar, passavam a habitar as suas personagens.
Mais recentemente, Canijo voltou a elevar o nome de Portugal no circuito internacional com o díptico Mal Viver e Viver Mal. O primeiro valeu-lhe o prestigiado Urso de Prata, Prémio do Júri no Festival de Berlim em 2023, um reconhecimento que coroou uma vida de dedicação absoluta ao cinema de autor.
O estilo de Canijo era inconfundível. Caracterizava-se por diálogos sobrepostos, uma câmara que observava quase como um “voyeur” e uma direção de atores, com destaque para as colaborações constantes com Rita Blanco e Anabela Moreira, que extraía performances de intensidade visceral.
Com a sua morte, o “Open Chronicle Portugal” recorda não apenas um cineasta, mas um antropólogo visual que soube, como poucos, filmar o que significa ser português, entre o fado, a tragédia e a resiliência do quotidiano. As luzes apagam-se no seu set, mas as suas imagens continuarão a projetar a luz crua da nossa realidade.