Por Open Chronicle Portugal com agências
Os portugueses estão entre os cidadãos que mais confiam na União Europeia e encaram o projeto europeu como uma importante fonte de estabilidade num contexto internacional marcado por guerras, tensões geopolíticas e incerteza económica.
Os resultados do mais recente Eurobarómetro da Primavera do Parlamento Europeu mostram que 94% dos portugueses consideram a União Europeia um lugar de estabilidade num mundo conturbado, enquanto apenas 5% discordam. O resultado coloca Portugal muito acima da média europeia, onde 75% dos cidadãos partilham essa perceção.
Alfredo Sousa de Jesus, chefe do Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal, destaca precisamente esta diferença, sublinhando que cerca de nove em cada dez portugueses olham para a UE como um “baluarte de estabilidade” perante conflitos armados e guerras económicas e comerciais.
Incerteza, mas também esperança
A forte confiança no projeto europeu contrasta com o estado emocional revelado pelos próprios portugueses.
Quase metade dos inquiridos, 49%, identifica a incerteza como um dos sentimentos que melhor descreve o momento atual, acima dos 44% registados na média europeia. Ao mesmo tempo, 48% referem esperança e 43% confiança, ambos valores superiores aos observados no conjunto da União Europeia.
Apesar desse ambiente de incerteza, 65% dos portugueses dizem estar otimistas quanto ao futuro da União Europeia, contra 59% na média dos 27 Estados-membros. A confiança é bastante menor quando a pergunta se refere ao futuro do mundo: apenas 41% dos portugueses manifestam otimismo.
97% querem Estados-membros mais unidos
Os resultados mostram também um forte apoio português ao aprofundamento da cooperação europeia.
Segundo o Eurobarómetro, 97% dos portugueses consideram que os Estados-membros devem reforçar a sua união para enfrentar os atuais desafios globais. Além disso, 92% defendem que a União necessita de mais recursos para responder a esses desafios.
A avaliação da participação portuguesa no projeto europeu é igualmente muito positiva. Cerca de 90% consideram que Portugal beneficiou por pertencer à União Europeia, enquanto apenas 7% entendem que a adesão não trouxe benefícios ao país.
Alfredo Sousa de Jesus considera que, no ano em que Portugal assinala quatro décadas desde a adesão ao projeto europeu, os resultados mostram uma sociedade cada vez mais europeísta. Apenas Dinamarca e Malta apresentam, segundo o responsável, níveis superiores aos portugueses neste indicador.
Uma voz mais forte no mundo
Quando questionados sobre as principais vantagens da integração europeia, os portugueses apresentam prioridades diferentes da média comunitária.
Para 43%, um dos principais benefícios é a possibilidade de Portugal ter uma voz mais forte no mundo. Seguem-se o contributo da UE para o desenvolvimento económico do país, referido por 40%, a criação de novas oportunidades de emprego, com 31%, e a melhoria do nível de vida, com 26%.
Curiosamente, apenas 24% dos portugueses destacam a manutenção da paz e o reforço da segurança como um benefício da pertença à União, contra 40% na média europeia.
Custo de vida e saúde no topo das preocupações
A elevada confiança nas instituições europeias não significa que os portugueses estejam satisfeitos com a situação económica e social.
O custo de vida, a inflação e o aumento dos preços são considerados uma prioridade por 65% dos portugueses, enquanto 62% colocam a saúde pública entre os temas que mais exigem atenção.
Seguem-se a economia e criação de emprego, com 47%, e o combate à pobreza e exclusão social, com 46%. Defesa e segurança são apontadas como prioridade por apenas 21%, abaixo dos 34% registados no conjunto da União Europeia.
A situação financeira das famílias surge também como a área em que mais portugueses gostariam de ver melhorias na sua qualidade de vida. É mencionada por 53% dos inquiridos, seguida pela acessibilidade e qualidade dos cuidados de saúde, com 51%.
Portugueses querem Parlamento Europeu mais interventivo
O estudo revela ainda uma avaliação particularmente positiva do Parlamento Europeu.
Mais de metade dos portugueses, 58%, dizem ter uma imagem positiva ou bastante positiva da instituição, cerca de 20 pontos percentuais acima da média europeia.
Mais significativo é o facto de 69% defenderem que o Parlamento Europeu deveria desempenhar um papel mais importante, mostrando uma vontade clara de maior intervenção da instituição perante os desafios que a Europa enfrenta.
Também 90% dos portugueses consideram que o papel da União Europeia na proteção dos cidadãos contra crises globais e riscos de segurança poderá tornar-se mais importante no futuro, contra 68% na média comunitária.
Paz continua a ser o valor fundamental
Quando questionados sobre os valores que o Parlamento Europeu deve defender prioritariamente, os portugueses colocam a paz no primeiro lugar.
É a escolha de 58% dos inquiridos em Portugal, contra 51% na média europeia. A defesa da democracia surge igualmente entre os valores centrais, mencionada por 32% dos portugueses.
Os resultados traçam, assim, um retrato aparentemente contraditório, mas revelador. Os portugueses demonstram preocupação com o custo de vida, saúde e futuro económico, e quase metade vive num sentimento de incerteza. Ao mesmo tempo, encontram na União Europeia uma das principais referências de estabilidade e mostram-se favoráveis a uma Europa mais unida e com maior capacidade de intervenção perante um cenário internacional cada vez mais imprevisível.